Expansão de empreendimentos imobiliários tem levado estabelecimentos a fechar ou mudar de endereço em regiões como Pinheiros e Jardins
O avanço da verticalização em bairros da cidade de São Paulo tem provocado mudanças na cena gastronômica local. Restaurantes que ajudaram a consolidar a identidade de regiões como Pinheiros e Jardins relatam dificuldades para permanecer nos mesmos endereços diante da valorização imobiliária e da venda de imóveis para construtoras.
Casos recentes ilustram a transformação urbana que vem afetando restaurantes tradicionais da capital paulista.
Um exemplo é o restaurante Totò, que funcionou por quase três décadas na Rua Dr. Sodré, em Pinheiros. O estabelecimento precisou deixar o imóvel após a venda do terreno para uma construtora.
Segundo um dos sócios, Gianandrea Bistolfi, a mudança ocorreu após anos de funcionamento no mesmo endereço e deve resultar na reabertura do restaurante em Moema.
Negociações após venda de imóveis
Situação semelhante ocorreu com o restaurante Così, que operava na Rua Haddock Lobo.
O chef Renato Carioni recebeu comunicação em 2022 informando a venda do imóvel por R$ 39,5 milhões.
Como locatário, ele tinha direito de preferência na compra, mas não conseguiu igualar o valor negociado.
Após negociações, foi estabelecido prazo para desocupação até julho de 2026. O restaurante deverá reabrir em outro endereço no bairro do Itaim.
Conflitos com obras
Em outros casos, os impactos da transformação urbana ocorreram durante a operação dos estabelecimentos.
O restaurante La Cura, localizado na zona oeste da cidade, relatou danos estruturais após a demolição de imóveis vizinhos adquiridos por uma construtora.
Segundo o chef Ivan Santinho, parte da estrutura do restaurante foi afetada durante as obras. A empresa responsável pelo empreendimento apresentou versão diferente, afirmando que o muro demolido fazia parte de seu terreno e que havia laudos técnicos indicando necessidade de remoção.
O restaurante afirma que ainda não tem previsão de reabertura.
Disputa por preservação de imóveis
Em Pinheiros, o restaurante Futuro Refeitório também enfrentou disputa envolvendo a preservação do imóvel onde funciona.
O edifício, construído na década de 1930 para abrigar uma fábrica de esculturas, foi adquirido por uma construtora em 2021.
Após mobilização de moradores e entidades, que reuniram mais de 10 mil assinaturas, parte da obra chegou a ser embargada pela prefeitura.
O processo de análise pelo Conpresp, órgão responsável pelo patrimônio histórico municipal, terminou sem o tombamento do imóvel.
Impacto sobre a dinâmica urbana
Para restaurateurs e empresários do setor, a expansão imobiliária altera o equilíbrio entre moradia, comércio e vida cultural dos bairros.
O empresário Hugo Delgado, da Taquería La Sabrosa, relata que seu restaurante precisou deixar um endereço na Rua Augusta após a venda do quarteirão para um novo empreendimento.
Segundo ele, situações semelhantes ocorreram também no novo endereço em Pinheiros, onde obras de prédios próximos afetaram o funcionamento do estabelecimento.
Debate urbanístico
Especialistas em urbanismo apontam que o processo de verticalização não é necessariamente incompatível com a preservação da vida urbana nos bairros.
O urbanista Matheus Oliveira afirma que o principal desafio está na forma como o desenvolvimento imobiliário é planejado.
Segundo ele, instrumentos urbanísticos como fachadas ativas, previstos no Plano Diretor de São Paulo, foram criados para manter atividades comerciais no térreo dos edifícios.
No entanto, Oliveira afirma que esses espaços muitas vezes não são projetados para abrigar atividades como restaurantes, que exigem infraestrutura específica.
Papel cultural dos restaurantes
Além da atividade econômica, especialistas destacam que restaurantes e bares exercem papel cultural e social nos bairros.
Esses estabelecimentos contribuem para a formação da identidade local e para a presença constante de pessoas nas ruas, fator que influencia a segurança urbana.
A discussão sobre o tema inclui propostas de reconhecimento de restaurantes tradicionais como parte do patrimônio cultural imaterial da cidade, além de medidas urbanísticas que incentivem a preservação do comércio de rua.
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