Dois anos após a maior catástrofe climática da história do Rio Grande do Sul, quando as enchentes de maio de 2024 destruíram ou danificaram mais de 500 mil imóveis, deslocaram 800 mil pessoas e vitimaram mais de 180 mortos e desaparecidos em 478 municípios, o estado gaúcho volta a enfrentar em maio de 2026 a combinação de alertas que mais aterroriza sua população: a previsão de um El Niño forte para o semestre e a chegada das primeiras chuvas intensas da temporada outonal, que já provocaram, entre os dias 1º e 2 de maio, alagamentos, bloqueios de rodovias, quedas de árvores e a morte de duas pessoas em ao menos 19 municípios.
A Defesa Civil do Rio Grande do Sul registrou, apenas nas primeiras horas dos temporais de início de maio, o volume de 324 milímetros de chuva em apenas sete horas no município de Rosário do Sul, na Fronteira Oeste do estado, marca histórica que provocou o alagamento de 225 residências e o desalojamento de 512 pessoas em uma única cidade. Em São Gabriel, Caçapava do Sul e Vila Nova do Sul, foram registrados volumes superiores a 200 milímetros no mesmo período. Rajadas de vento que ultrapassaram 80 quilômetros por hora atingiram diferentes pontos do estado, e municípios como Nova Palma e Júlio de Castilhos registraram ocorrência de granizo, fenômeno que agrava os danos às lavouras e à infraestrutura urbana.
O que torna o contexto de 2026 particularmente angustiante para os gaúchos é a consciência de que o processo de reconstrução iniciado após as enchentes de 2024 permanece incompleto. Comunidades inteiras do Vale do Taquari, do Vale do Rio Pardo e da Serra gaúcha ainda aguardam a conclusão de obras de habitação, contenção de encostas e recuperação de pontes e estradas que eram prioritárias no plano de reconstrução elaborado pelos governos estadual e federal logo após a tragédia. A chegada de um novo El Niño forte, fenômeno oceano-atmosférico caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial que tende a aumentar significativamente a precipitação no Sul do Brasil durante os meses de outubro a março, coloca em perspectiva o risco de uma segunda tragédia sobre uma infraestrutura que ainda não foi plenamente restaurada.
Especialistas em meteorologia e hidrologia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul são cautelosos em afirmar que o El Niño de 2026 produzirá um evento de magnitude comparável ao de 2024. Os dois fenômenos diferem em ao menos um aspecto importante: em 2024, o El Niño chegou ao seu ápice em um solo já encharcado por meses anteriores de precipitação acima da média, condição que potencializou o escoamento superficial e a velocidade com que os rios transbordaram. Em 2026, o início do ano foi relativamente seco no estado, o que pode representar uma margem de absorção inicial maior antes que os rios atinjam patamares críticos.
Ainda assim, a cautela dos especialistas não elimina a necessidade de preparação rigorosa por parte das autoridades e da sociedade gaúcha. O plano de contingência elaborado pela Defesa Civil do Estado foi revisado e ampliado após 2024, incorporando sistemas de alerta precoce mais precisos, mapas de risco atualizados para todos os municípios em situação de vulnerabilidade e protocolos de evacuação preventiva para comunidades ribeirinhas. O estado também avançou na instalação de sirenes de alerta em cidades historicamente afetadas por cheias e na integração com plataformas digitais de monitoramento em tempo real. São avanços reais, mas que precisarão ser testados sob pressão quando, e não se, as próximas chuvas de grande intensidade chegarem.
A dimensão humana da tragédia climática gaúcha vai além dos números de mortos, desalojados e prejuízos materiais. As populações que viveram em 2024 a experiência traumática de ver suas casas destruídas pela água carregam sequelas psicológicas profundas, e muitas delas optaram por não retornar às regiões de risco, alterando permanentemente o perfil demográfico e econômico de várias comunidades. O Rio Grande do Sul de 2026 é um estado em processo lento e doloroso de ressignificação de sua relação com o território e com os fenômenos climáticos, processo que a previsão de um novo El Niño forte torna ainda mais urgente e angustiante.
__
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS — Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

